10 de novembro de 2012

"Caridade" e 2 arco-íris

Em dia de aniversário, mais de 12 horas quase seguidas de campanha do SAP, com paragens saborosas para a EUcaristia e grupo de jovens e um bocado de catequese, apenas dois apontamentos: por volta das 8h e pouco uma venezuelana ao sair do supermercado, depois de ter sido abordada para contribuir ao entrar, que vê "corações"/caras (!?!?!) e a dizer-me que eu tenho cara com laivos de bondade (não foi por estas palavras!!!), e, passado uma hora, na Serra das Minas o sol a brilhar e umas nuvens escuras ao longe, que felizmente passaram, e pensar que veria um arco-íris... afinal vi dois simultâneos!!!
PS: e hoje vou resistir a abrir o FB!  

22 de outubro de 2012

Conversas vadias... no Céu!

A Irmã Ligia e o afilhado David terão que esperar (ups!), para além dos últimos livros lidos, afinal blogue não condiz nada com preguiçoso, mas, devido a uma conversa de ontem, ao espreitar os DVD's do "Público" a propósito dos 100 anos de Agostinho da Silva (1906-1994), apeteceu-me ver a Conversa vadia com Manuel António Pina, que por certo agora continua... no Céu!  

27 de setembro de 2012

São Vicente de Paulo

São Vicente de Paulo, tão amado por tantos e, quatrocentos anos depois, os seus passos continuam a fazer sentido!
Hoje lembrei-me de uma peregrinação a Ars (e Lisieux) em pleno Ano Sacerdotal (Março de 2010), com passagem "obrigatória" por Paris, pelo que o que de mais RICO trouxe de lá foi mesmo um encontro inesperado, ou pelo menos não programado, com ele:
Logo seguido de uma fotografia rápida, felizmente que tremida, de um amigo numa das pontes sobre o Sena!
    

3 de agosto de 2012

O que Jesus realmente quis dizer, Garry Wills

"O que Jesus realmente quis dizer" de Garry Wills (Lua de papel, 2008), historiador norte-americano, catalogado de católico liberal, procura ir à fonte principal da Fé, a Bíblia, partindo de traduções do grego que estarão mais perto do que realmente Jesus disse... ou melhor, diz!
Apesar de considerar que o título tem uma raiz forte de marketing, para mais num Prémio Pulitzer, sendo algumas partes eventualmente mais polémicas, copio apenas um exemplo:
"Gilbert Chesterton afirmou que o cristianismo não falhou - simplesmente nunca foi tentado. Mas, sempre que é tentado, é visto como uma ameaça, tal como Jesus o foi. Por palavras prestam serviço aos pobres, mas na verdade distanciam-se deles. Não meditam no óbvio - que Jesus não vestia roupas bonitas. Ele não possuiu nem utilizou cálices dourados ou recipientes preciosos. Não tinha um anel de jóias para ser beijado." 

27 de julho de 2012

Cultura, Dietrich Schwanitz

Finalmente estou "em dia" no blogue, apesar deste enorme livro de quase 600 páginas e com letra pequena, ter sido lido com uma grande interrupção pelo meio! "Cultura - Tudo o que é preciso saber" de Dietrich Schwanitz (Livros d'Hoje, Publicações Dom Quixote, 2004) está centrado na Europa, com muitas referências à cultura alemã, apesar disso, se soubesse tudo o que li na ponta da língua estaria munido de uma bela bagagem... logo teria que pagar suplemento de peso! O livro é dividido em duas partes, o saber e o poder. A primeira parte, e mais extensa, é dedicada à história europeia, seguindo-se a literatura, arte, música, filósofos e ideologias e os papéis dos sexos, estando a segunda centrada na linguagem, no livro e na escrita, na geografia política para a mulher e o homem cosmopolita, a inteligência e até o que não convém saber!
Apenas uma breve passagem, que até incorpora um citação, pelo estaremos perante uma "bi-citação": "A cultura é um estado ágil e treinado da mente que se forma quando uma pessoa já tudo soube e voltou a esquecer-se de tudo: «Eu esqueço a maior parte do que li tal como não me lembro do que comi; mas tenho a certeza de que ambas estas actividades contribuem para o sustento do meu espírito e do meu corpo.» (Georg Christoph Lichtenberg)".

O hipopótamo de Deus e outros textos, José Tolentino Mendonça

No seguimento dos dois recentes livros do Padre José Tolentino de Mendonça, que recentemente passaram pelo blogue, dei de caras, não com um hipopótamo, mas com este "O hipopótamo de Deus e outros textos" editado pela Assírio & Alvim em 2010, pequenos textos para reflectir, sendo que me revi, muito insignificantemente, no "Aprendo a rezar com os pés".
O texto que dá nome ao livro, para desvendar algum mistério, termina assim: "Job queria desvendar a dobra do Mal e esquecia que é o Bem o gigantesco segredo, o inesperado desígnio que mais nos visita."
A propósito da "Sintaxe das lágrimas", também a frase final: "Cioran disse um dia que as lágrimas são aquilo que permite a alguém ser santo depois de ter sido homem."
Agora do meio, de "Como se vai para o céu": "As observações de Galileu vão abrir um longo e duro debate entre Fé e Ciência, transferindo para o Céu um conflito de hermenêuticas. Pena não se ter dado ouvidos, nesse tempo, à sentença prudente do cardeal Cesar Baronius, que o próprio Galileu parafraseou: «A Bíblia mostra como se vai para o Céu, e não como vai o Céu.»"

Cinco pães e dois peixes, Francisco Van Thuan

Comprei o pequeno livro "Cinco pães e dois peixes - Do sofrimento do cárcere, um alegre testemunho de fé" escrito por Francisco Xavier de Nguyen Van Thuan (Paulinas Editora, 2009) por acaso, mas lembrando-me do testemunho que ouvi de alguns padres húngaros em Esztergom em 19 de Setembro de 2007, no decorrer do ICNE de Budapeste:
O título foi muito bem escolhido pelo cardeal vietnamita Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, bispo de Nhatrang (Centro do Vietname) desde 1967, nomeado arcebispo-coadjutor de Saigão (hoje Ho Chi Minh Ville) e preso, poucos meses depois, em 15 de Agosto de 1975, quando os comunistas chegarem à cidade. O livro resulta dos 13 anos de cativeiro, 9 dos quais em isolamento,  porque passou o cardeal Van Thuan, que viria a falecer em Roma em 16 de Setembro de de 2002 (passados 5 anos foi anunciado pelo Vaticano o início do processo de beatificação).
"Liberto, após treze anos de cativeiro, quero compartilhar convosco as minhas experiências: como encontrei Jesus em cada momento da minha experiência quotidiana, no discernimento entre Deus e as suas obras, na oração, na Eucaristia, nos meus irmãos e irmãs, na Virgem Maria, oferecendo-vos deste modo, também eu, e à maneira de Jesus, cinco pães e dois peixes."
Aliás, bastaria percorrer o índice para termos uma ideia ideia do seu "percurso":
Viver o momento presente (primeiro pão);
Discernir entre Deus e as obras de Deus (segundo pão);
Um ponto firme, a oração (terceiro pão);
A minha única força, a Eucaristia (quarto pão);
Amar até à unidade, o testamento de Jesus (quinto pão);
Maria Imaculada, meu primeiro amor (primeiro peixe);
Escolhi Jesus (segundo peixe).

Do quarto pão:
"Nunca poderei exprimir a minha grande alegria: todos os dias, com três gotas de vinho e uma gota de água na palma da mão, celebro a minha Missa.
De qualquer maneira, dependia da situação. No navio que nos levava para o Norte, celebrei durante a noite e, avisados, os presos estavam à minha volta. Às vezes, tinha de celebrar quando todos iam tomar banho, depois da ginástica. No campo de reeducação, estávamos divididos em grupos de cinquenta pessoas: dormíamos em cama comum, cada um com direito a 50 cm. Demos um jeito de tal modo que havia cinco católicos comigo. Às 21h30, era preciso apagar a luz e todos deviam dormir. Inclino-me sobre a cama para celebrar a Missa, de cor, e distribuo a comunhão, passando a mão debaixo do mosquiteiro. Fabricávamos saquinhos com papel dos maços de cigarros, para conservar o Santíssimo Sacramento. Jesus eucarístico estava sempre comigi no bolso da camisa."

Cada pão e peixe, que nem são muito compridos, redigidos no verso de velhos calendários, termina com uma oração, que no quarto pão se intitula "Presente e Passado":
Jesus amantíssimo, nesta noite, no fundo da minha cela sem luz, sem janela, quentíssima, penso com intensa nostalgia na minha vida pastoral.
Oito anos de bispo, nesta residência, apenas a dois quilómetros da minha cela de prisão, na mesma estrada, na mesma praia... Sinto as ondas do Pacífico, os sinos da catedral.
— Já celebrei com patena e cálices dourados,
agora, com teu sangue na palma da minha mão.
— Já percorri o mundo para conferências e reuniões,
agora estou recluso numa cela estreita, sem janela.
— Já fui visitar-te no tabernáculo,
agora levo-te comigo, dia e noite, num bolso.
— Já celebrei a Missa diante de milhares de fiéis,
agora na escuridão da noite, passando a comunhão debaixo do mosquiteiro.
— Já preguei os exercícios espirituais aos padres, aos religiosos, aos leigos...
agora uma padre, também ele prisioneiro, me prega os Exercícios de Santo Inácio, através da greta de madeira.
— Já dei a bênção solene com o santíssimo, na catedral,
agora faço a adoração eucarística todas as noites às 21 horas, no silêncio, cantando baixinho o Tantum Ergo, a Salve Raínha, e concluindo com esta breve oração:
«Senhor, estou contente em tudo aceitar das tuas mãos, todas as tristezas, os sofrimentos, as angústias, até à minha morte. Amén.»

Sou feliz aqui nesta cela, sobre a esteira de palha mofada crescem fungos brancos, porque Tu estás comigo, porque Tu queres que eu viva aqui contigo.
Falei muito na minha vida, agora não falo mais. É a tua vez, Jesus, de falar-me. Escuto-te: que coisa me sussurraste? É um sonho? Tu não me falas do passado, do presente, não me falas do meu sofrimento, angústias... Tu falas-me dos Teus projectos, da minha missão.
Então eu canto a tua misericórdia, na obscuridade, na minha fragilidade, no meu aniquilamento.
Aceito a minha cruz e cravo-a, com as minhas duas mãos, no meu coração.
Se me permitisses escolher, não mudaria porque Tu estás comigo! Não tenho mais medo, entendi, sigo-te na tua paixão e em tua ressurreição."
(No isolamento, prisão de Phú Khánh (Vietname central), 7 de Outubro de 1976, Festa do Santo Rosário.)