12 de agosto de 2011

Lua de mel, lua de fel

Depois da doce Emmanuelle Seigner n' "O Escafandro e a Borboleta", um perturbante drama de Roman Polanski (1992), que explora as mais obscuras profundezas da perversão sexual, e cujo final me surpreendeu, embora... à lei da bala!!!

O Escafandro e a Borboleta

O filme "O Escafandro e a Borboleta", realizado por Julian Schnabel em 2007, foi mais um daqueles exemplos de um filme de que ouvi falar muito bem, mas que acabei por deixar passar no cimena, pelo que foi com alegria que reencontrei o DVD numa coleção do Público (para mais, por apenas 1,95 euros).

Narra o final da vida de Jean-Dominique Bauby, editor a Elle Francesa, que aos 43 anos e no auge da sua carreira profissional, sofreu um acidente vascular cerebral que lhe paralisou o corpo inteiro... excepto um olho, e a mente. Apesar do tormento, Bauby conseguiu utilizar esse olho para comunicar com o mundo exterior, descrevendo de forma detalhada, letra a letra, as suas angústias, os seus sonhos, o seu mundo interior. Bauby acabaria por publicar um livro autobiográfico com uma mensagem de esperança poderosa.

Este é um daqueles filmes europeus, que muitos considerarão "pró-parado" e, de facto, na primeira parte vemos o que ocorreu "apenas" através do olho do protagonista, mas tem uma graciosidade que advém de transformar um escafandro, que nos impede qualquer movimento, numa borboleta que esvoaça freneticanente para onde quisermos!

Don Carlo Gnocchi, o Anjo das crianças

Desconhecia a bela história do Beato Carlo Gnocchi (beatificado em 25 de Outubro de 2009), mas a capa do DVD, um sacerdote a consagrar rodeado de soldados prendeu-me! Em boa hora ocorreu, pois, apesar de estarmos perante um telefilme italiano de 2004, realizado por Cinzia Th. Torrini, logo sem algumas das condições das superproduções, a história cativa, e muito mais quando se descobre que não estamos perante factos fictícios, mas perante um relato (aproximado) da vida do Padre Carlo Gnocchi, que presumo será bastante conhecido em Itália:
Do DVD do filme, protagonizado por Daniele Liotti (e com a Alexandra Dinu, uma bela romena!), consta o seguinte texto de apresentação: A vida incrível de Carlo Gnocchi criador da Fundação para a Ajuda das Crianças Mutiladas pela Guerra. Don Carlo Gnocchi, professor no Instituto Gonzaga, é enviado para a frente da guerra com a Albânia como capelão militar. A sua experiência na guerra leva-o a altertar os alunos - já de regresso a Milão - para não se alistarem. Porém, a maioria já o fez e é enviada para a Frente Leste em 1942. Esta guerra é ainda mais cruel e sangrenta, e Don Gnocchi, que acompanha os jovens para os apoiar e lhes dar assistência, testemunha a morte de vários amigos.

O capelão começa então a acalentar a ideia de criar uma fundação para ajudar os milhares de crianças que se tornaram vítimas da guerra. Franscesco, um dos seus antigos alunos, Sara, uma enfermeira apaixonada por Matteo, outro antigo aluno, e o cardeal Montini irão apoiá-lo nesta empresa. Pouco depois, em 1948, o próprio Pio XII reconhece o esforço levado a cabo por Don Gnocchi em prol das crianças órfãs ou mutiladas pela guerra.
Da parte final do discurso do Papa João Paulo II aos participantes na peregrinação da Fundação dedicada ao Padre Carlo Gnocchi (30 de Novembro de 2002) - a Fundação Pró-Juventude:
"A sua generosidade prolongou-se para além da morte, que chegou a 28 de Fevereiro de 1956, mediante a doação das suas córneas a dois jovens cegos. Foi um gesto precursor, se considerarmos que em Itália o transplante de órgãos ainda não era regulados por normas legislativas. (...)
"Restabelecer a pessoa humana" é o princípio que continua a inspirar-vos, em fidelidade ao espírito do Padre Carlo Gnocchi. Ele tinha a convicção de que não é suficiente assistir o doente; é preciso "restaurá-lo", promovendo-o através de oportuna terapias adequadas para lhe fazer recuperar a confiança em si mesmo. Se isto requer uma actualização técnica e profissional, exige ainda mais um constante apoio humano e sobretudo espiritual. Partilhar o sofrimento gostava de repetir este insigne pedagogo social é o primeiro passo terapêutico; o resto é feito pelo amor."

11 de agosto de 2011

O Cardeal Newman

O livro "O Cardeal Newman - Precursor do Vaticano II" de Charles Sptephen Dessain (Padre), da Livraria Apostolado da Imprensa (Braga, 1990), permitiu-me conhecer melhor o Cardeal John Henry Newman, sobretudo o seu pensamento, o que defendia e as lutas que teve que travar. Sempre tive uma profunda admiração pelo Beato Newman, mesmo antes de conhecer muito da sua história, que cresceu ainda mais a partir do momento em que descobri que o belíssimo Hino das completas das 5.ª-feiras é da sua autoria: "Luz terna, suave, no meio da noite\ Leva-me mais longe...\ Não tenho aqui mora permanente: Leva-me mais longe..." (que por acaso já "passou" pelo blogue em 14 de Janeiro de 2010).

O Cardeal Newman (1801-1890) foi um Padre Anglicano, cujo estudo dos Padre da Igreja levou a interrogar-se sobre os fundamentos do anglicanismo e, no fim da sua reflexão, a tornar-se católico (1854).

"E este sermão concluiu: "Desejo um homem que com os lábios confesse a sua imortalidade, e que viva como quem tem consciência daquilo que os seus lábios dizem. Esse vai no caminho da salvação"."

" A liturgia é que sustenta a nossa fé; "no culto religioso vamos captando gradualmente o invisível"." (1830)

"A sua doutrina espiritual tinha em vista os leigos que vivem no mundo, e a eles procurava adptar-se." (1836)

"Deixei dito atrás que na minha conversão não fui consciente de que tivesse operado qualquer mudança nos meus pensamentos ou sentimentos, em matérias de doutrina."

"Respondeu-me com esta pergunta: 'mas o que são os leigos?' E eu respondi-lhe mais ou menos por estas palavras: 'sem eles a Igreja pareceria uma loucura'."

"Reafirmando o princípio que eloquentemente proclamara no seu artigo sobre o laicado, Newman insistia: "A Igreja actua como um todo; não é simplesmente uma filosofia, mas é uma comunhão; não descobre apenas a verdade, mas ensina-a; é obrigada a consultar, não só por motivos de fé, mas também de caridade"."

"'Sem certeza na fé religiosa, pode haver uma decência exterior de devoção e observância, mas é impossível ter hábitos de oração, ou intercâmbio íntimo com com o invisível, ou generosidade no vencimento próprio. A certeza é essencial para um Cristão; e se ele tem que perseverar até ao fim, esta certeza deve incluir em si o princípio de persistência'."

"Tinha 78 anos, quando recebeu o Chapéu Cardinalício, e os últimos onze anos da sua vida passou-os em relativa paz com a sua crescente comunidade, a sua escola, as inúmeras visitas, a vasta correspondência. Só desejava fazer tudo quanto pudesse para defender a Religião Revelada."

"Isto tornou-se notório sobretudo desde a 'abertura' da Igreja para o mundo dos nossos dias, começada por João XXIII, e continuada pelo Concílio Vaticvano II, que chegou a ser tido como "o Concílio de Newman"."

"Embora o mundo invisível fosse para ele tão vivo, tinha consciência das limitações da Revelação, e pediu que lhe inscrevessem estas palavras na lousa sepulcral: "Ex umbris et imaginius in veritatem" ("das sombras e imagens à verdade")."

4 de agosto de 2011

A História de Irena Sendler

Atendendo à chuva intensa na tarde do dia 1 de Agosto, acabei por substituir o passeio a pé entre a Praça do Comércio e Av. AAA (António Augusto Aguiar) por um passeio de Metropolitano! Logo, o tempo com que fiquei até ao filme que fui ver foi preenchido no El Corte Inglés nas únicas secções que gosto de visitar... as dos DVD's e CD's e a livraria!!! Resultado mais 2 DVD's comprados!!!
Confesso que desconhecia a existência do recente filme "A História de Irene Sendler" de John Kent Harrisson (2009), interpretado pela Anna Paquin, baseado no livro "The Mother of the Holocaust Children" de Anna Mieszkowska, talvez por ser um telefilme (The Courageous Heart of Irena Sendler), rodado, por certo, na sequência do falecimento da heroína ao 98 anos em 12 de Maio de 2008 em Varsóvia.

No meu caso apenas tomei conhecimento da sua história através de simples um PowerPoint, com tradução "brasileira", que andou a circular nos últimos tempos pela net e que me apresentou a coragem da também conhecida como "o Anjo do Gueto de Varsóvia", que durante a II Guerra Mundial contribuiu para salvar mais de 2.500 crianças judias durante a ocupação alemã da Polónia.

"A razão pela qual resgatei as crianças tem origem no meu lar, na minha infância. Fui educada na crença de que uma pessoa necessitada deve ser ajudada com o coração, sem importar a sua religião ou nacionalidade." - Irena Sendler(owa).

Não houve uma única criança que salvou que tivesse sido atraiçoada ou descoberta pelos nazis, mas estes souberam da sua actividade e prenderam-na em 20 de Outubro de 1943 levando-a para a infame prisão de Pawiak onde foi brutalmente torturada. Num colchão de palha encontrou uma pequena estampa de Jesus Misericordioso com a inscrição: "Jesus, em Vós confio", e conservou-a consigo até 1979, quando a ofereceu ao Papa João Paulo II.

Pequenas mentiras entre amigos

Uma comédia francesa de 2010 que começa e acaba com muito drama, este "Pequenas mentiras entre amigos" de Guillaume Canet ("Les petits mouchoirs", os pequenos lenços, com o título em inglês de "Little white lies"). Um filme europeu, apesar das pipocas e da sala do El Corte Inglés estar bastante composta, para além de ter que levar com, pelo menos 15 minutos de publicidade, que deu para reflectir sobre a vida e todas as pequenas mentiras que acabamos por dar, mesmo entre amigos!

3 de agosto de 2011

Foucauld no deserto

Demorei mais tempo do que o que queria... e devia a ler este livro "Foucauld no deserto" de Maurice Serpette, uma edição da Fundação à Igreja que Sofre, que, quase no final, uma vez que a ficha técnica se encontra na última página, descobri que foi de apenas 500 exemplares, pois de facto este não é um livro de "massas!!!!

Além do mais, nem sequer foca a vida toda do Beato Carlos de Foucauld, beatificado pelo Papa Bento XVI em 13 de Novembro de 2005, nem na sua conversão de 1886, visto que chegou a ser soldado francês, mas "apenas" os últimos 16 anos da sua vida (viveu entre 1858 e 1916), de preparação e vida como monge eremita no deserto do Sahara vivendo entre os tuaregues. Um grande precursor do diálogo interreligioso, apesar da sua proximidade com os nómadas do deserto e do apoio que dava aos mais pobres. Partindo do estuda da língua e cultura tuaregue, mas sobretudo do seu exemplo, abriu a porta e o caminho para os que vieram depois dele, sendo um testemunho de que é preciso compreender a língua de um país para que se deseje compreender verdadeiramente.

"Foucauld chega a Tamanrasset a 11 de Agosto (de 1903). Não perde um só instante na instalação. Compra um terreno (não é propriamente o que ali falta...) e, a 19 de Agosto, começa a edificar um eremitério-capela de 6m x 1,75m, segundo um plano desde há muito reflectido. Nele celebra a Missa pela primeira vez a 7 de Setembro, e esse dia deve ter sido para ele simultaneamente um ponto de partida; uma ocasião de acção de graças e uma súplica para o futuro, tão misterioso quanto o vasto horizonte."

"Foucauld escreve à sua prima: «No meio de um oceano de males, os dois mais graves parecem ser a falta de instrução e a falta de educação. Um grau de ignorância que os torna incapazes de distinguir o falso do verdadeiro e, muitas vezes, o bem do mal.» Esta última frase revela, aliás, que a preocupação moral está bem presente no Foucauld apóstolo, mas considera-a dependente de um nível mínimo de formação e incompatível com a ignorância."

"Esta escolha de Tamanrasset - modesta aldeia de vinte fogos (e, mesmo assim, prefere fixar-se a certa distância) - leva-nos a reflectir sobre a relação de Foucauld com a solidão. Em Dezembro de 1905, estando desde há alguns meses em Tamanrasset, escreve à sua prima de Bondy: «Não se aflija por me ver só, sem amigos, sem auxílio espiritual: não me custa nada a solidão, acho-a até bem agradável: tendo o Santíssimo Sacramento, o melhor amigo, com quem se fala dia e noite...»"

«Como manter este império? Civilizando-o. fazendo pelos seus habitantes o que gostaríamos que fizessem por nós; tratando-os com justiça e bondade, dever de todo o ser humano para com o semelhante; trabalhando o mais possível em fazê-los progredir, em elevá-los moral e intelectualmente tanto quanto de possa, o que não é senão um dever de caridade - amar o próximo como a si mesmo.»

«É a evangelização, não pela Palavra, mas pela presença do Santíssimo Sacramento, o oferecimento do Sacríficio divino, a oração, a penitência, a prática das virtudes evangélicas, a caridade - uma caridade fraterna e universal, partilhando até ao último pedaço de pão com qualquer pobre, qualquer hóspede, qualquer desconhecido que se apresente e recebendo qualquer ser humano como um irmão bem amado...»

"E conclui: »Nazaré pode viver-se em qualquer lado, vive-a no lugar mais útil ao próximo.»"

"O cuidado e auxílio dos pobres vão tornar-se ainda mais urgentes; sabe-se que Foucauld vai racionar as suas já frugais refeições para poder alimentar as crianças. Estas privações serão a causa do seu extremo cansaço do fim de 1907 , início de 1908."

«Nunca amaremos o suficiente.»