3 de agosto de 2012

O que Jesus realmente quis dizer, Garry Wills

"O que Jesus realmente quis dizer" de Garry Wills (Lua de papel, 2008), historiador norte-americano, catalogado de católico liberal, procura ir à fonte principal da Fé, a Bíblia, partindo de traduções do grego que estarão mais perto do que realmente Jesus disse... ou melhor, diz!
Apesar de considerar que o título tem uma raiz forte de marketing, para mais num Prémio Pulitzer, sendo algumas partes eventualmente mais polémicas, copio apenas um exemplo:
"Gilbert Chesterton afirmou que o cristianismo não falhou - simplesmente nunca foi tentado. Mas, sempre que é tentado, é visto como uma ameaça, tal como Jesus o foi. Por palavras prestam serviço aos pobres, mas na verdade distanciam-se deles. Não meditam no óbvio - que Jesus não vestia roupas bonitas. Ele não possuiu nem utilizou cálices dourados ou recipientes preciosos. Não tinha um anel de jóias para ser beijado." 

27 de julho de 2012

Cultura, Dietrich Schwanitz

Finalmente estou "em dia" no blogue, apesar deste enorme livro de quase 600 páginas e com letra pequena, ter sido lido com uma grande interrupção pelo meio! "Cultura - Tudo o que é preciso saber" de Dietrich Schwanitz (Livros d'Hoje, Publicações Dom Quixote, 2004) está centrado na Europa, com muitas referências à cultura alemã, apesar disso, se soubesse tudo o que li na ponta da língua estaria munido de uma bela bagagem... logo teria que pagar suplemento de peso! O livro é dividido em duas partes, o saber e o poder. A primeira parte, e mais extensa, é dedicada à história europeia, seguindo-se a literatura, arte, música, filósofos e ideologias e os papéis dos sexos, estando a segunda centrada na linguagem, no livro e na escrita, na geografia política para a mulher e o homem cosmopolita, a inteligência e até o que não convém saber!
Apenas uma breve passagem, que até incorpora um citação, pelo estaremos perante uma "bi-citação": "A cultura é um estado ágil e treinado da mente que se forma quando uma pessoa já tudo soube e voltou a esquecer-se de tudo: «Eu esqueço a maior parte do que li tal como não me lembro do que comi; mas tenho a certeza de que ambas estas actividades contribuem para o sustento do meu espírito e do meu corpo.» (Georg Christoph Lichtenberg)".

O hipopótamo de Deus e outros textos, José Tolentino Mendonça

No seguimento dos dois recentes livros do Padre José Tolentino de Mendonça, que recentemente passaram pelo blogue, dei de caras, não com um hipopótamo, mas com este "O hipopótamo de Deus e outros textos" editado pela Assírio & Alvim em 2010, pequenos textos para reflectir, sendo que me revi, muito insignificantemente, no "Aprendo a rezar com os pés".
O texto que dá nome ao livro, para desvendar algum mistério, termina assim: "Job queria desvendar a dobra do Mal e esquecia que é o Bem o gigantesco segredo, o inesperado desígnio que mais nos visita."
A propósito da "Sintaxe das lágrimas", também a frase final: "Cioran disse um dia que as lágrimas são aquilo que permite a alguém ser santo depois de ter sido homem."
Agora do meio, de "Como se vai para o céu": "As observações de Galileu vão abrir um longo e duro debate entre Fé e Ciência, transferindo para o Céu um conflito de hermenêuticas. Pena não se ter dado ouvidos, nesse tempo, à sentença prudente do cardeal Cesar Baronius, que o próprio Galileu parafraseou: «A Bíblia mostra como se vai para o Céu, e não como vai o Céu.»"

Cinco pães e dois peixes, Francisco Van Thuan

Comprei o pequeno livro "Cinco pães e dois peixes - Do sofrimento do cárcere, um alegre testemunho de fé" escrito por Francisco Xavier de Nguyen Van Thuan (Paulinas Editora, 2009) por acaso, mas lembrando-me do testemunho que ouvi de alguns padres húngaros em Esztergom em 19 de Setembro de 2007, no decorrer do ICNE de Budapeste:
O título foi muito bem escolhido pelo cardeal vietnamita Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, bispo de Nhatrang (Centro do Vietname) desde 1967, nomeado arcebispo-coadjutor de Saigão (hoje Ho Chi Minh Ville) e preso, poucos meses depois, em 15 de Agosto de 1975, quando os comunistas chegarem à cidade. O livro resulta dos 13 anos de cativeiro, 9 dos quais em isolamento,  porque passou o cardeal Van Thuan, que viria a falecer em Roma em 16 de Setembro de de 2002 (passados 5 anos foi anunciado pelo Vaticano o início do processo de beatificação).
"Liberto, após treze anos de cativeiro, quero compartilhar convosco as minhas experiências: como encontrei Jesus em cada momento da minha experiência quotidiana, no discernimento entre Deus e as suas obras, na oração, na Eucaristia, nos meus irmãos e irmãs, na Virgem Maria, oferecendo-vos deste modo, também eu, e à maneira de Jesus, cinco pães e dois peixes."
Aliás, bastaria percorrer o índice para termos uma ideia ideia do seu "percurso":
Viver o momento presente (primeiro pão);
Discernir entre Deus e as obras de Deus (segundo pão);
Um ponto firme, a oração (terceiro pão);
A minha única força, a Eucaristia (quarto pão);
Amar até à unidade, o testamento de Jesus (quinto pão);
Maria Imaculada, meu primeiro amor (primeiro peixe);
Escolhi Jesus (segundo peixe).

Do quarto pão:
"Nunca poderei exprimir a minha grande alegria: todos os dias, com três gotas de vinho e uma gota de água na palma da mão, celebro a minha Missa.
De qualquer maneira, dependia da situação. No navio que nos levava para o Norte, celebrei durante a noite e, avisados, os presos estavam à minha volta. Às vezes, tinha de celebrar quando todos iam tomar banho, depois da ginástica. No campo de reeducação, estávamos divididos em grupos de cinquenta pessoas: dormíamos em cama comum, cada um com direito a 50 cm. Demos um jeito de tal modo que havia cinco católicos comigo. Às 21h30, era preciso apagar a luz e todos deviam dormir. Inclino-me sobre a cama para celebrar a Missa, de cor, e distribuo a comunhão, passando a mão debaixo do mosquiteiro. Fabricávamos saquinhos com papel dos maços de cigarros, para conservar o Santíssimo Sacramento. Jesus eucarístico estava sempre comigi no bolso da camisa."

Cada pão e peixe, que nem são muito compridos, redigidos no verso de velhos calendários, termina com uma oração, que no quarto pão se intitula "Presente e Passado":
Jesus amantíssimo, nesta noite, no fundo da minha cela sem luz, sem janela, quentíssima, penso com intensa nostalgia na minha vida pastoral.
Oito anos de bispo, nesta residência, apenas a dois quilómetros da minha cela de prisão, na mesma estrada, na mesma praia... Sinto as ondas do Pacífico, os sinos da catedral.
— Já celebrei com patena e cálices dourados,
agora, com teu sangue na palma da minha mão.
— Já percorri o mundo para conferências e reuniões,
agora estou recluso numa cela estreita, sem janela.
— Já fui visitar-te no tabernáculo,
agora levo-te comigo, dia e noite, num bolso.
— Já celebrei a Missa diante de milhares de fiéis,
agora na escuridão da noite, passando a comunhão debaixo do mosquiteiro.
— Já preguei os exercícios espirituais aos padres, aos religiosos, aos leigos...
agora uma padre, também ele prisioneiro, me prega os Exercícios de Santo Inácio, através da greta de madeira.
— Já dei a bênção solene com o santíssimo, na catedral,
agora faço a adoração eucarística todas as noites às 21 horas, no silêncio, cantando baixinho o Tantum Ergo, a Salve Raínha, e concluindo com esta breve oração:
«Senhor, estou contente em tudo aceitar das tuas mãos, todas as tristezas, os sofrimentos, as angústias, até à minha morte. Amén.»

Sou feliz aqui nesta cela, sobre a esteira de palha mofada crescem fungos brancos, porque Tu estás comigo, porque Tu queres que eu viva aqui contigo.
Falei muito na minha vida, agora não falo mais. É a tua vez, Jesus, de falar-me. Escuto-te: que coisa me sussurraste? É um sonho? Tu não me falas do passado, do presente, não me falas do meu sofrimento, angústias... Tu falas-me dos Teus projectos, da minha missão.
Então eu canto a tua misericórdia, na obscuridade, na minha fragilidade, no meu aniquilamento.
Aceito a minha cruz e cravo-a, com as minhas duas mãos, no meu coração.
Se me permitisses escolher, não mudaria porque Tu estás comigo! Não tenho mais medo, entendi, sigo-te na tua paixão e em tua ressurreição."
(No isolamento, prisão de Phú Khánh (Vietname central), 7 de Outubro de 1976, Festa do Santo Rosário.)

Caritas in Veritate

A terceira Carta Encíclica do Papa Bento XVI, a "Caritas in Veritate - A Caridade na Verdade ", apesar da temática interessante e actualidade, sendo datada já de 29 de Junho de 2009, foi lida apenas recentemente.
"A caridade supera a justiça, porque amar é dar, oferecer ao outro do que é "meu"; mas nunca existe sem justiça, que induz a dar ao outro o que é "dele", o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir. Não posso "dar" ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de mais, justo para com eles."
"A área económica não é nem eticamente neutra nem de natureza desumana e anti-social. Pertence à actividade do homem; e, precisamente porque humana, deve ser eticamente estruturada e institucionalizada."
"Todo o nosso conhecimento, mesmo o mais simples, é sempre um pequeno prodígio, porque nunca se explica completamente com os instrumentos materiais que utilizamos. Em cada verdade, há sempre mais do que nós mesmos teríamos esperado; no amor que recebemos, há sempre qualquer coisa que nos surpreende. Não deveremos cessar jamais de maravilhar-nos diante destes prodígios."

O Concerto

Já vi o filme há algum tempo, mas "O Concerto" de Radu Mihaileanu (2009) é uma bela comédia, partindo e acabando numa situação dramática, que procura juntar o virtuosismo dos instrumentistas da União Soviética (ex-URSS) com as vicissitudes do mundo ocidental! Não deixando de ser um filme de matriz francesa, com um realizador romeno, é uma co-produção de vários países europeus, em que os protagonistas são russos (Alexei Guskov, o maestro, e Dimitri Nazarov, o principal amigo) e franceses (com destaque para bela Melanie Laurent, a violinista e estrela). É a história de um famoso maestro da Orquestra Bolshoi que, na era comunista, é humilhado ao ser colocado como empregado de limpeza porque recusou separar-se dos seus músicos judeus. Desviando um fax da direcção, aproveita um convite para a orquestra tocar em Paris, com todas as dificuldades de reunir os antigos instrumentista da grande orquestra, que agora vivem de pequenos trabalhos, pelo que tem que mergulhar no universo de judeus e ciganos, traduzindo o filme sobretudo o seu deslumbramento ao aterrarem em Paris! As cenas de comédia sucedem-se, mas recordo a falsificação de alguns passaportes em pleno aeroporto, obrigando-os a desviar a atenção dos polícias, o que não sei se seria possível sem ser em filme, assim como reunir, praticamente sem ensaios, uma grande orquestra que não tocava junta há muitos anos, dado que uma parte dos instrumentistas andava a tratar da sua vida...

25 de julho de 2012

Museu de São Roque

O que gosto mais gosto nos museus e Igrejas com arte-sacra é tentar descobrir o título ou passagem dos evangelhos que retratam ou o santo a que dizem respeito, o que muitas vezes não consigo, embora depois de ver a solução (título) conclua que estava mesmo à frente do nariz!
O Museu de São Roque tem essa possibilidade, iniciando-se a visita pela evocação da Ermida de São Roque, erigida no local em 1506 após o rei D. Manuel I, no contexto de um surto de peste que assolou Lisboa em 1505, ter solicitado à República de Veneza uma relíquia de São Roque, pois o santo era conhecido pelos milagres em favor das populações que sofriam de peste.
Segue-se a evocação da Companhia de Jesus, que em virtude do apoio do rei D. João III chegou a Portugal em 1540, o ano da sua aprovação pelo Papa Paulo III, e que tomou posse da ermida. Em 1555 iniciaram-se obras de ampliação da ermida, que no entanto foram abandonadas para a construção de uma Igreja de raiz que foi aberta ao culto em 1573, apesar de inacabada, como Igreja e antiga Casa Professa de São Roque. Depois passa-se a uma área de arte oriental, atendendo ao papel dos missionários jesuítas, e a um núcleo dedicado à Capela de São João Baptista, cuja construção teve lugar em Roma, entre 1742 e 1747, pois foi transportada para Portugal em três naus, para mostrar o brilho e o requinte do reino, tendo D. João V,  à custa do ouro do Brasil, promovido muitas encomendas de obras de arte e grandes projectos arquitectónicos, e sido inaugurada em 1752, já no reinado de D. José I, e assente numa capela lateral da Igreja de São Roque. Cheia de peças de culto e ornamentais de grande valor, o objectivo era impressionar quem a visitava, mostrando um Estado que em nada ficava atrás das principais potências europeias da época, o que hoje nos causa alguma estranheza, ou talvez não!
A visita ao museu termina com um núcleo dedicado à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, iniciando-se a exposição com a sua mentora, a grande Rainha D. Leonor (mulher do rei D. João II, o Príncipe Perfeito), que a fundou em 1 5 de Agosto de 1498, e que esteve sediada primeiro numa capela do claustro da Sé e foi transferida em 1534, até ao terramoto de 1755, para a Igreja da Conceição Velha. Em 1759 a Companhia de Jesus foi expulsa do reino de Portugal, pelo que a Igreja e Casa de São Roque foram doadas à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), que desde 1768 tem aí a sua sede. PS: também marcou pontos uma escultura do Menino Jesus Caminhante!
Como o Museu de São Roque promove mensalmente a apresentação de uma peça do seu acervo, pude beneficiar de uma folha com algumas notas sobre o quadro/tábua "Nossa Senhora da Misericórdia" de Domingos Vieira Serrão, do final do século XVI, pintor régio de Filipe I de Portugal, que foi adquirida pela SCML em 1983. A representação do clero e da nobreza, ajoelhados e em atitude de prece, salta à vista na parte inferior, mas se não fosse o papel talvez me passasse despercebida o pedinte e a criança que, representados de costas, encaram a Virgem de frente, simbolizando a preferência mariana pelos humildes.
A visita só podia terminar na Igreja de São Roque, cheia de turistas, em que somos esmagados pela sua riqueza a grandiosidade e que os vigilantes quase que nos fazem esquecer que já não estamos num Museu, mas sim numa Igreja, mas, a apesar de passar despercebido a muitos turistas, o Santíssimo Sacramento está lá para nos lembrar o mais importante!